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Discursos de posse

ACADEMIA MINEIRA DE MEDICINA

2007

PALAVRAS PROFERIDAS NA SOLENIDADE DE POSSE

CADEIRA Nº 86

Professor Doutor José Raimundo da Silva Lippi

MEMBRO TITULAR

18 de Maio de 2007

 

SUMÁRIO

 

  1. – Introdução

 

Esta noite eu falarei um pouco sobre minha vida. Como diria Guimarães Rosa nesta frase transcendental, tomada emprestada de Riobaldo:

 “Viver é perigoso”.[1] 

Uma Boa noite a todos os presentes. Esta é uma solenidade singular para mim. Estou feliz e emocionado em poder compartilhar com confrades, amigos, companheiros, colegas, conhecidos e todos aqueles que fizeram e fazem parte do meu dia- a -dia.

E com João Cabral de Melo Neto que me alertou num dos livros mais bonitos que li, Morte e Vida Severina, com esse pensamento:

“É difícil responder só com palavras a vida, ainda mais quando ela é esta que se vê, Severina”. [2] .

Mas, eu não vim dos sertões do Nordeste. Eu vim da zona da mata, da riqueza do passado familiar e da pobreza do meu nascer. [3] (Anexo: 01).

 

Eu vivi e Sobrevivi no serrado da alma. Eu experimentei os espinhos do inconsciente, palmilhando alguns recantos deste solo Brasileiro. Ainda estou elaborando o sabor das caatingas que nascem do ventre da terra e respingam suas seivas no espírito dos homens.

 

  1. – Da Academia

 

“É bem verdade que os jovens não sabem o que podem e os velhos não podem o que sabem” (Saramago, 2000:14)[4].

Traduzo este pensamento, dentro da Jovialidade da Academia Mineira de Medicina, parafraseando Saramago:

“É bem verdade que o jovem

(que existe dentro de cada acadêmico)

sabe o que pode e

os “velhos” experientes

(desta Academia)

podem o que sabem” .

2.1. – Agradecimentos

A fantasia de entrar para a AMM nasceu em 1973 quando recebi, nesta casa, o Prêmio Galba Veloso oferecido por esta Academia. Este prêmio foi num trabalho realizado com minha equipe do Hospital que levava o nome do Psiquiatra inspirador do prêmio, pai de Fernando Veloso ex-acadêmico, e avô de Silvio Veloso, psiquiatra com a sabedoria da “velha guarda”.  Naquela noite em solenidade marcante imaginei ser um dia integrante desta importante casa do saber médico. (anexo 02). Passaram-se 34 anos.

 

“A vida são deveres que nós trouxemos para fazer em casa”.

Quando se vê, já são Seis horas.

Quando se vê, já é 6ª feira.

Quando se vê, já é Natal,

Quando se vê, já terminou o ano.

Quando se vê, não sabemos mais por onde andam nossos amigos.

Quando se vê, perdemos o amor de nossa vida.

Quando se vê, passaram-se 50 anos”.[5]

 

Não basta estar médico. É necessário ser médico! Não basta estar Professor. É necessário SER Professor. Não basta estar vivo. É necessário viver!

Com Mário Quintana, que nos ensina a compreensão da vida no Início deste lindo poema, desejo agradecer aos prezados componentes desta mesa, insignes figuras que fazem parte desta solenidade, e que torna realidade um sonho de 34 anos. Cumprimento em primeiro lugar á Dra. Iracema Baccarini por sua presença e longo ideal de acadêmica. Cumprimento nosso querido e atual presidente. Dr. Evaldo Assumpção, colega de muitas jornadas, com a promessa que serei um colaborador atuante. Prof. Dr. Enio Cardillo Vieira, querido professor: Sua presença nesta solenidade me faz recordar dos bons tempos da Faculdade quando aprendi ética e dignidade profissional. Aproveito o ensejo para agradecer sua presença estendendo, in memoriam, aos mestres Wilson Beraldo e Hilton Rocha, simbolizando um agradecimento à todos aqueles de grandes virtudes da nossa Faculdade. Prof. Dr. Manoel Otávio da Costa Rocha, representante do Diretor de nossa Faculdade de Medicina da UFMG, a quem agradeço a honra da presença e estendo meu agradecimento ao grupo de pediatras, particularmente Ennio Leão meu professor, amigo e incentivador. Dr. Waldemar Henrique Fernal, que representa o presidente da AMMG, cuja competência admiro de longa data, obrigado pela presença. Dr. José de Laurentys Medeiros representante do Diretor da Faculdade de Ciências Médicas, meu Professor e, também, futebolista da velha guarda obrigado por sua amável presença. Dr. José de Souza Andrade Filho que aqui representa o Conselho Regional de Medicina estou grato por sua presença honrosa. Ao Dr. Gilberto Madeira Peixoto que permitiu este sonho se concretizar, pelo grande estímulo e incentivo, envio o meu muito obrigado. Ao colega Geraldo Caldeira, que muito me estimulou e a Jorge Paprocki e Marco Aurélio Baggio que juntos caminhamos uma longa estrada ajudando a transformar a Psiquiatria Mineira.

Quero agradecer, também, ao meu paraninfo pelas palavras elogiosas a mim dirigidas. Vindas da pessoa especial que é este mestre, amigo e colega, elas soam como verdadeiras e profundas, já que seu estilo, que conheço há anos é de plena sinceridade e honestidade. Foi um daqueles com quem me identifiquei e que eu soube ao mesmo tempo e no decorrer da vida me desindetificar, isto é, tentando tornar meu o bom que ele me transmitia e me transformando cada vez mais em mim mesmo. Este importante processo de crescimento me fez o depositório de muitas identificações de figuras que marcaram a minha vida, como estamos apontando. A sua generosidade está envolvida pelo afetivo que nos une desde a década de 60 quando me recebeu de braços abertos no Hospital Galba Veloso, Centro de referência em ensino e Pesquisa de psiquiatria, da época. Agradece-lo, novamente de público, não é uma tarefa repetitiva e sim a demonstração de reconhecimento daquele que se sentiu acolhido amparado e estimulado em momentos delicados da vida.

 

Aproveito o ensejo para agradecer à todo o staff da Associação Médica e da Academia por tudo que fizeram para atender minhas reivindicações com carinho e paciência. Agradeço à Raquel pela atenção dedicada à minha pessoa. Agradeço, especialmente, à minha filha Flávia Lippi, Jornalista da TV/CULTURA/SP, nossa Mestre de Cerimônia de hoje!

 

  1. – Breve nota histórica da Psiquiatria

Esta cadeira nº 86 pertence a esta Academia. Mas, sua existência se deve á um passado da psiquiatria. Por isso, levantarei, inicialmente, uma ligeira nota sobre os primórdios da Psiquiatria Brasileira: No Am J Psychiatry de abril de 2005 num artigo sobre IMAGES IN PSYCHIATRY consta uma mini-biografia de Juliano Moreira (1873-1933)[6] como fundador da Psiquiatria Científica no Brasil.

 

Um homem sem história não é ninguém; uma especialidade sem história não existe e um País sem história nunca existiu. Minas Gerais sempre se posicionou nas questões da psiquiatria. Embora eu sinta que agora temos menos prestígio no âmbito Nacional. Aqui vamos falar do nosso Patrono, que ocupou posição de relevo, fazendo uma síntese de sua grande carreira médica e política. Agradeço ao Austregésilo Filho, aqui presente com sua família, todos os dados do patrono e do ex-ocupante da cadeira, seu pai, que aqui homenageamos.

 

  1. – DOS ANTECESSORES

O Manual para posse de um novo Acadêmico, estimula em sua primeira página: “Todas as quatro partes são importantes, mas o enfoque no Patrono e nos ocupantes anteriores da Cadeira é de alto significado, pois exalta aqueles que deixam um legado de ética, ciência honorabilidade do qual o novo acadêmico se faz Sucessor”. È o que passo a cumprir agora.

 

4.1 – PATRONO

Washington Ferreira Pires nasceu em formiga (MG) no dia 13 de fevereiro de 1892, filho do médico e político José Carlos Ferreira Pires e de Matilde Guilhermina de Faria Pires. Seu pai foi o responsável pela introdução do raio-X no Brasil e deputado federal por Minas Gerais de 1891 a 1899. . Era casado com Lindéia Sette Ferreira Pires. Ele também seguiu a tra­jetória política seu irmão Hílton Ferreira Pires, deputado federal constituinte (1933-1935).

 

Washington Pires formou-se em medicina, em 1915, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Trabalhou como assistente do céle­bre médico Miguel Couto, prestando servi­ços durante a campanha de combate à febre amarela. Retomando a seu estado, clinicou em Formiga e, mais tarde, obteve por con­curso uma cátedra na Faculdade de Medici­na de Minas Gerais.

 

Era Deputado Federal em 1930 quando teve de retornar a Belo Horizonte pela dissolução da Câmara. Em seu regresso, voltou a clinicar e a lecionar na capital mineira. Ao mesmo tempo, ingressou na Fa­culdade de Direito, vindo a bacharelar-se. Em 1932 assumiu o Ministério de Educação e Saúde. Retomou à cena política apenas em janeiro de 1956, quando foi nomeado titular da Se­cretaria de Saúde e Assistência de Minas Gerais. Washington Pires morreu em Belo Horizonte no dia 23 de novembro de 1970. Publicou vários trabalhos: A ansiedade nos irregulares sexuais (1917), Es­tupro e caracteres físicos da virgindade (1923), Neuro-recidivas (1926), Etíopatologia da neu­ro-sífilis (1926), A gênese e a psicanálise (1928), Considerações em tomo da reeduca­ção dos afásicos (1935), Estudo do líquido ce­falorraquiano (1935), Sinais e falsa identidade (1956) e Psicanálise na profilaxia do crime e do delito (1956).[7]

 

4.2 – Último Ocupante da Cadeira de nº. 86: Austregésilo Ribeiro de Mendonça

Eu tive o privilégio de conhecer este psiquiatra pessoalmente com quem trabalhei no Hospital Santa Maria, que ele fundou. Ele nas­ceu em São José de Ubá, no município de Cam­buci (RJ), no dia 25 de julho de 1908, filho do farmacêutico Joaquim Ribeiro de Mendon­ça e de Francisca Curvelo de Mendonça. Era casado com Maria Ildefonso de Men­donça, com quem teve três filhos. Austregésilo Filho, Solange – ambos psiquiatras e Lúcia Badaró.

Formou-se em Medicina e especializou-­se em Psiquiatria no Rio de Janeiro. Foi assistente da Clínica Psiquiátrica na Faculdade Nacional de Medicina, onde defendeu tese de Livre-docência em 1937 sobre A cura de Sakel e suas impli­cações clínicas. Em 1939 foi empos­sado, após concurso, como docente ­livre na Faculdade de Medicina de Minas Gerais, com a tese Novos aspectos na terapêutica da esquizofrenia, tendo co­ordenado diversos Cursos Equiparados de Clínica Psiquiátrica.

Em 1940, quando Chefe do Depar­tamento de Assistência Neuropsiquiá­trica da Secretaria de Saúde, fundou o Instituto Psico-Pedagógico, com obje­tivo de abrigar as crianças e adoles­centes, até então internados com os adultos no Instituto Raul Soares.  O IPP foi anexado ao Hospital de Neuropsiquiatria Infantil hoje Centro Psico-pedagógico. Como Secretário de Estado da Saúde, em 1958, iniciou a construção do Hospital Galba Velloso para pacientes do sexo feminino. Planejava construir ou­tro hospital para homens e destinar o Instituto Raul Soares para hospital-dia/ oficina-terapêutica, que iria preparar os enfermos menos graves.

Foi um dos fundadores da Faculdade de Ciências  Médicas. Exerceu os cargos de Secretário de Saúde vindo a falecer em Belo Horizonte em 19 de abril de 1999.

Como vemos foram dois brilhantes expoentes da Psiquiatria Mineira

 

4.3 – Membro Titular ATUAL

 

Li, na minha adolescência, em (Mark Twain’s Autobiography and First Romance” a seguinte frase: “na minha vida tive muitos problemas, a maior parte nunca existiu”. Eu venho progressivamente compreendendo a profundidade da frase deste grande escritor. Ela me faz recordar os motivos da minha entrada na Medicina e na Psiquiatria. Encontro aqui um momento oportuno para esta descrição. Busquei a psiquiatria com a fantasia de que sendo médico – ser médico na minha juventude era ocupar um lugar impar na sociedade – e psiquiatra “o homem da magia inconsciente capaz de resolver todos os problemas, inclusive os próprios”. Fui até hipnotizador. Falsa ilusão.

 

Em confesso que vivi do Prêmio Nobel de literatura de 1971, Pablo Neruda, maravilhoso e combatente poeta, anotei, também, (Neruda, 1997:43) a frase, que ele citou de memória, do poeta Francês Apollinaire: “Piedade para nós que exploramos as fronteiras do irreal”.[8] O poeta lida predominantemente com o irreal. Nós psiquiatras, também, trabalhamos com o irreal e com o subjetivo, ouvindo histórias e estórias de nossos interlocutores e sempre aprendendo. Por isso, temos grandes escritores na Medicina e na Psiquiatria. Estive recentemente no Chile e em Viña De Mar fui rever a Sebastiana nome da linda casa que ele construiu para o seu amor (Matilde) e lí algo que assimilei assim: “As ondas do mar estavam tão bravias e revoltas que não se entendiam. Somente quando chegaram bem embaixo das janelas da Sebastiana se acalmaram, fizeram as pazes e ficaram tranqüilas”. Como eu gostaria de acalmar as ondas do desespero daqueles que me procuram aflitos. Tenho tentado.

 

Como eu gostaria de ser poeta!

 

Eu poderia utilizar este momento a mim determinado pela Academia, falando um pouco mais da minha trajetória já traçada pelos amigos Evaldo e Paprocki. Tentarei fazê-lo, mas de forma que eu possa transmitir algo de especial para esta Academia e para as Sras. e os Srs. presentes. Todos nós passamos ou estamos passando para esta tal humana fase do desenvolvimento da nossa espécie. É atual, moderno e muito importante refletir sobre este tema.

 

  1. – Do Tédio

 

Para isso, abordarei rapidamente o tema do “TÉDIO”, ou melhor, daquele que “sente o tédio” e daquele “que produz tédio”. Sentir tédio, chamado na nossa especialidade de “SPLEEN” é normal. Desde a etapa de bebê até à velhice pode-se vivenciar e sentir o tédio. Na adolescência ele é marcante e na velhice um perigo. Agora, “estar” ou “ser” ENTEDIANTE É PATOLÓGICO. Tentarei não sê-lo, nesta fala. Mas, o que seria “spleen”? Não vou dar uma aula, mas o vicio e o cacoete de ser professor universitário há tantos anos me direciona tentar a ser o mais claro possível. Por que escolhi falar deste tema? Em todas as posses que assisti o nosso presidente tenta “dissecar” o que é Academia e Acadêmico. Esta casa não é um “lugar” de “velhinhos”. “Nem de tédio”!  Existem muitas interpretações errôneas sobre esta casa iluminada pelo saber. Paprocki nos deu hoje uma clara definição. Aqui estão seres que superaram os 50 anos de idade (pré-requisito básico) e tiveram que se submeter a uma rigorosa seleção! Entrar para esta Academia constitui uma honra e um enorme compromisso com a dignidade e a ética profissional. Eu mesmo para entrar com os meus 72 anos, não o fiz pela idade e jubilado (Anexo: 03), e sim, cumpri o rigoroso regulamento, apresentando o meu extenso memorial – currículo comentado – composto de 03 volumes e com cerca de 1000 páginas que denominei de: “O bacurau que tentou voar como Condor Real”. (Anexo: 04) Adaptei esta frase do Professor Wilton Ribeiro da Rocha, ex-orador oficial desta Academia, que pronunciou em tom solene numa das aulas da graduação, para a minha turma, o seguinte pensamento: “SENHORES: DESEJO QUE VOCÊS TENHAM O VÔO ALTANEIRO DO CONDOR-REAL E NUNCA O VÔO RASTEIRO DO BACURAU” (Anexo 05).

 

Retive esta frase e passei a sonhar em ser um pássaro.

 

Esta é uma casa de Condores Reais.

 

Aprovado o meu Memorial em 2006, entreguei um trabalho original, em 03 vias, que foi avaliado por banca examinadora, cujos membros não fiquei sabendo os nomes. O tema do trabalho foi: “Abuso Sexual na Infância: conseqüências Neurobiológicas e Clínicas”.

 

Falando de Abuso Sexual aproveito o ensejo para anunciar que, hoje, 18 de maio é o Dia Nacional de Combate ao Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes.

 

Eu Tenho o orgulho de afirmar que quem primeiro tocou neste tema no Brasil foi este que luta há muitos anos na prevenção da violência contra as crianças. Aqui nasceu o 1º SOS CRIANÇA DO BRASIL, chamado de Disque-Criança.

 

Continuando a minha luta, contra os abusos estou agora no pós-doutoramento, sob a orientação de dois jovens Professores: Geraldo Busatto do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (Medicina Nuclear); Cláudio Cohen , chefe do Serviço de Saúde Mental e Justiça, do Departamento de Medicina Legal e Ética. Lá estou tentando provar as graves conseqüências morfofuncionais e clínicas, o tema que apresentei nesta casa.

 

Voltando à Academia, as exigências para adentrar neste palácio do saber, não terminou quando defendi o meu trabalho científico. O meu nome teve que ser referendado em Assembléia Geral pela maioria dos componentes da casa.

 

Ser Acadêmico é alcançar um nível de aspiração e de responsabilidade muito elevados. Eu não fiz 72 anos em abril próximo passado e sim 72 anos me fizeram de tal forma que pude aspirar e conseguir este lugar na mais elevada casa do saber médico.

 

Espero ter provado que a Academia não é uma casa de velhinhos entediados, muitos menos entediantes, sabendo que em todos os âmbitos existem exemplares destes seres: como disse Paprocki “somos imortais, mas também humanos”. E passamos alguma dificuldade na questão da memória.

 

Vou contar a estória das 03 velhinhas conversando sobre uma memória. Uma dizia: estou péssima, imagine que saio da mesa parai r à cozinha, chego lá e não sei o que fazer! E a outra: eu estou pior. Fui levar meu marido ao médico, deixei-o na porta do prédio esperando, e voltei pra casa! Só lembrei 3 horas depois! E, a terceira batendo forte com a mão fechada na mesa: “ISOLA”! Vire essa boca pra lá. Eu estou ótima de memória. Passaram-se alguns segundos: “Maria vê que bateu ai na porta”.

 

Mas agora, corto um pouco do humor, para contar um pouco da minha verdadeira caminhada num vídeo de 03 minutos veiculado pela Rede Globo.

 

“Experiência não é o que se fez, mas o que se faz com aquilo que se fez”.

(Huxley, 1976).[9]

 

Muitos seres têm dificuldade em passar pelas “transformações” necessárias da Adolescência e de alcançarem a idade adulta mantendo a maturidade emocional. Esses indivíduos vivem de relações superficiais com dificuldade de estabelecerem uma intimidade verdadeira e assim revelam um sentimento de vazio e de falta de sentido da vida. Muitos deles são confundidos como depressivos e vivem à custa de medicamentos buscando encontrar neles e em seus receitadores uma resposta para sua solidão. Muitos vão para cirurgia. Como pesquisador em psiquiatria eu sei o exato valor das drogas psicotrópicas que, quando bem indicadas, operam maravilhas. Podemos ser Normais foi o título do artigo de Valentim Gentil Filho, meu particular amigo e Diretor do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, quando fala da importância da psicofarmacoterapia e de outros aspectos de nossa área. (Veja, 2007).[10] Ele sabe que embora muitos colegas sejam seguros estudiosos de farmacologia alguns deles não têm a habilidade do psiquiatra humanista. Jamais deixar o paciente sofrer com os recursos disponíveis, inclusive usando a medicação quando necessária, é o mister do psiquiatra. Sabemos, contudo, da fantasia de alguns médicos resolver os problemas dos pacientes à custa de meia dúzia de drogas psicotrópicas e muitos aceitam. Não é este o caminho.

 

Como surgem estes sentimentos de tédio? Existe um “tédio” normal que é vivido e sentido. E existe um ser entediante que não ultrapassou as etapas esperadas para o seu desenvolvimento. O tédio faz parte das emoções humanas desde o início da vida. Sêneca, por exemplo, escreveu o livro sobre o “Tedium Vitae” de uma forma que lembra o que chamamos hoje de tédio contemporâneo. Muitos autores são categóricos em relacionar o tédio ao homem moderno. Svendsen[11] faz uma distinção entre o “tédio situacional”, experiência emocional que acompanha o homem ao longo da história e o “tédio existencial”, fenômeno relacionado ás condições engendradas pela modernidade. Na verdade, acreditam alguns, o tédio tem sido um relato cada vez mais freqüente. Ele aparecia antes do advento da modernidade e do romantismo ligado aos religiosos, afastados dos afazeres mundanos, e aos nobres, em seu ócio nada criativo. Hoje de alguns ricos. Símbolo até então de status, locado nos espaços sociais privilegiados, o tédio, na cultura contemporânea, se espraia por diversos setores, por diferentes estratos sociais. Martin Dohelmann define quatro tipos: tédio situacional (uma dada situação nos deixa entediados, uma espera prolongada, como por exemplo, se esta solenidade se estender muito), tédio da saciedade (quando temos em demasia a mesma coisa e ocorre a banalização), tédio existencial (quando existe uma falta de sentido na vida) e o tédio criativo (somos levados a criar para escapar do tédio).

 

Recebo no meu consultório algumas pessoas ricas, que alcançaram a etapa da banalização das coisas pelo muito que adquiriram e outras que não têm um sentido para a sua vida e que passam a buscar mais dinheiro de forma obsessiva; outros a beber e jogar como fuga por não se sentirem realizados e ainda outros que com certa consciência passam a viver culpabilidades pelos erros, cometidos. Vale a pena colocar aqui algumas palavras do prefácio que o colega Marcio Bontempo, que não conheço, fez para o mais novo livro da minha querida filha Flávia Lippi[12] que está a caminho do prelo: “John Robbins, herdeiro milionário do maior império do sorvete dos Estados Unidos, estava sendo preparado pelo pai para assumir os lucrativos negócios da grande rede Robbin-Basket, a maior da América. Mas há duas décadas, John conheceu uma garota macrobiótica maluca, que mostrou a ele como o sorvete pode ser prejudicial à saúde da população. John decidiu então mudar o rumo da sua vida, não assumindo o cargo. O pai, cheio de ira, expulsou-o de casa, sendo que John foi morar com a namorada num humilde apartamento do famoso bairro hippie do Village, em Nova York. Lá John soube também dos males da carne e dos problemas relacionados ao seu consumo, bem como as doenças provocadas pelos aditivos alimentares. Ele resolveu escrever um livro, Diet for a New América, que acabou se tornando um dos maiores best sellers do mundo”, vendendo mais de Cinco milhões de exemplares. John ganhou mais dinheiro do que se tivesse assumido a presidência das empresas do pai. Mas,  muito simples, em vez de gastar sua fortuna com coisas fúteis, aplicou cada centavo no trabalho de melhorar a vida das pessoas, através da alimentação consciente”.

 

Eu decidi fazer parte da Academia por considerar que na nossa idade constitui excelente atividade o compartilhar de experiências com as cabeças pensantes da Medicina, alguns aqui presentes. Esta decisão me parece um ato criativo fugindo do tédio existencial.

 

Como podemos perceber não é fácil a compreensão verdadeira do que é tédio. Temos igual dificuldade a falar do tempo. Cora Coralina – aquela poetisa de Goiás velho, que iniciou a escrever na “velhice” – nos ensinou: “A melhor universidade é a da Vida e o melhor professor o tempo”. Mas, Santo Agostinho chama a nossa atenção para: “Todos sabem o que é o tempo, mas o difícil é dizer o que ele é”.

 

Sobre a vida e o tempo a poesia que iniciei de Mário Quintana e que agora termino é rica de conteúdo:

 

Quando se vê passaram-se 50 anos.

Agora é tarde demais para ser reprovado.

Se me fosse dado um dia, uma oportunidade,

Eu não olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e

iria jogando pelo caminho,

a casca dourada e inútil das horas.

 

Seguiria todos os meus amigos que

Já não sei onde e como estão, e diria:

Vocês são extremamente importantes para mim.

Seguraria o meu amor

Que está há muito à minha frente,

E diria: eu te amo.

 

Dessa forma, eu digo:

Não deixe de fazer algo que gosta

Devido a falta de tempo.

Não deixe de ter alguém do seu lado

Ou de fazer algo, por puro medo de ser feliz.

A única falta que terá

Será deste tempo que infelizmente,

Não voltará mais”. (anexo).

 

Ter os meus entes queridos próximos, incluindo os amigos e fazer aquilo que eu gosto, tem sido o meu viver. Adoro viajar pelo mundo. Eu gosto muito de estudar e aprender com os mais sábios. Creio que este é um bom lugar para mim.

 

Que bom ter tanta gente querida aqui hoje!

Muitos de nós não alcançamos sair da adolescência, do tédio adolescente. Para compreender isso um pouco melhor vamos nos louvar na produção do adolescente poeta Alvarez de Azevedo. O autor de Noites na Taverna começou a escrever recém saído da meninice e aos 17 anos, em 1848, quando se matriculou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, registrando em uma carta que enviou à mãe (Sérgio Alcides, 2004)[13], em 11 de junho: “adeus e viva que não há mais nada digno de contar-me senão que a cidade ainda não deixou de ser São Paulo…O que quer dizer muitas coisas: entre as quais tédio e aborrecimento“. Ele escreveu da mesma forma que Charles Baudelaire, ambos entediados com suas cidades. Estes dois poetas tinham, entretanto, queixas distintas. Álvares de Azevedo queixava-se da falta de progresso e civilização de São Paulo, enquanto Charles Baudelaire queixava-se da modernização e da velocidade de sua Paris. Isso é relevante, pois mostra que para o verdadeiro “Spleen” adolescente a realidade externa, como tal, não importa tanto.  Álvares de Azevedo escreveu em Lira dos Vinte Anos uma série de versos aos quais ele deu o título de Spleen e Charutos, onde sua, digamos, filiação ao “Spleen” fica mais uma vez caracterizada. Nestes, tem um sobre solidão, muito significativo e bonito.

Por que me lembro destes autores poetas? Minha sofrida existência – por problemas, que como li em Twain, nunca existiram – mas, na realidade na minha cabeça fez-me passar por terrível tédio. E Álvares Azevedo foi enterrado no cemitério de um hospício. Para quem buscava na psiquiatria alivio para suas dores este foi um fato relevante.

“Estou me esforçando para tentar esclarecer a minha existência e a minha vinda para esta Academia”.

 Em um trabalho intitulado Ansiedade associada à Insegurança, Winnicott[14] comentou o resultado das falhas ambientais nos cuidados que um bebê necessita, referindo que o registro (catalogação, registros mnêmicos especialmente sensoriais) dessa experiência fracassada constitui o fundamento da apresentação do paciente entediante, através da circularidade transferência/contransferência, como acontece, por exemplo, com alguns pacientes esquizóides, ou com tendência anti-social ou, ainda, com estruturas tipo falso self. Torna-se evidente que em todas as camadas sociais encontraremos quem sente e quem produz tédio. É penoso ouvir pessoas falando sempre do mesmo tema, repetitivos, tentando convencer com argumentos vazios uma platéia que vai se sentido entediada. Muitos ouvem por necessidade, outros por pena. Bebês cuidados por enfermeiras uniformizadas, com pós-graduação, e muitas sem afetividade, são fortes candidatos ao tédio e à delinqüência. Estes indivíduos anti-sociais existem em todas as camadas da sociedade: Os meninos de rua, anti-sociais, são destes que são repetitivos e sem gestos e atitudes ordenadas. Muitos alcançam a delinqüência e como resultante têm a morte como conseqüência. Mas há, também, os alguns milionários anti-sociais que “roubam” monetariamente, do povo, da comunidade e, às vezes, da própria família. Estes morrem de solidão. Todos os anti-sociais “roubam” no intuito de reparar os vazios causados pela falta de afeto.

“A dor é localizada enquanto que o tédio evoca um mal sem nenhuma localização, sem nenhuma base, sem nada exceto esse nada, inidentificável que os corrói”.

Por tanto, por pertencer a este mundo e estar nele, tento dar um sentido à minha vida, preenchendo vazios de forma a me engrandecer. Tenho procurado sensibilizar as pessoas a encontrarem um mundo no qual possa exercer sua criatividade e nele ganhar sua vida. Não basta ganhar dinheiro. É necessário faze-lo de modo a se sentir realizado.

 

“Se deseja ter orgulho de si mesmo,

então faça coisas

das quais possa se orgulhar”

(Horney, apud   Yalom, 2006:22)[15]

 

Tenho orgulho de ter, juntamente com Ligia, construído o lar e a família que temos. E, também, tenho perseverado no meu voluntariado que já vai para 22 anos sendo um “missionário sem religião” do Fundo Cristão para Crianças. Lá idealizei o Projeto Bebê e Cia. (mostrado no vídeo) que até hoje está vivo e já com adolescentes (ex-bebês) fazendo o secundário e alguns dos adolescentes da época, já estão na Universidade. Vale a pena constatar o acerto de algumas das nossas ações, visando o bem da humanidade.

 

Ao nos aproximar-mos do final, e já preocupado com o relógio, falarei agora de minha caminhada enquanto psiquiatra, mas antes quero contar uma anedota sobre ele: “Doutor, meu problema é que eu acho que sou o relógio da Central do Brasil. – Há quanto tempo você pensa isso? Ah, desde que eu era um reloginho de pulso”.

Eu iniciei nesta área com Prof. Hélio Durães do Alkimim, com quem trabalhei na Monitoria do Departamento desde o 3º  ano do Curso de Medicina. Ele foi aquele que me despertou para a Psiquiatria Infantil. No Departamento de Psiquiatria convivi com figuras marcantes: Jairo Bernardes, Sebastião Salim, José Carlos Câmara, Gilberto Belizário Campos, entre outros. O professor Jorge Paprocki foi meu introdutor na área da pesquisa e da administração psiquiátrica, além da clínica.  E, com ele, consolidou-se a minha escolha para a psiquiatria da infância: Ainda estudante fui privilegiado por ele para chefiar a 5ª Enfermaria – de crianças e adolescentes – no HGV. Não caberia aqui a citação de todos os meus mestres nos âmbitos Nacional e Internacional e corro o risco do esquecimento de alguns importantes, além daqueles que eu já citei, para a minha vida. In memorian dedico: Luiz Enrique Prego Silva, Stanislaw Krynski, Haim Grunspun, Antonio branco Lefevre; Julian de Ajuriaguerra, e Max Lesnik Oberstein, importante parte do assento da cadeira nº 86 desta Academia.

 

  1. Da Equipe

Trabalhar juntos seguidamente durante quase 30 anos é um privilégio. Assim, com Ana Maria Carvalho Dias (psicóloga) Silvia Oliveira (Assistente Social Psiquiátrica) e Rosângela Las Casas (Psicopedagoga), eu pude estudar, pesquisar, fazer assistência e publicar. Ajudados por Hélia, nossa Secretária há 32 anos que atende a todos nós com carinho e eficiência e que continua sua magnífica tarefa mesmo depois de aposentada. E sem Maria que mantem há tantos anos o nosso ambiente limpo e sereno, por sua experiência e competência, não seria possível tanto conforto. Mas não foi sempre assim: em julho próximo farei 42 anos de formado. Iniciei a carreira como todos, atendendo sozinho e onipotentemente no meu consultório. Trabalhar com profissionais da Saúde mental é muito desgastante. Muitos não resolvem seus conflitos que o fizeram a se aproximar deste trabalho e mantêm relacionamentos muito difíceis. Passei por problemas. Fiz terapia individual e de grupo. Sou grato aos meus terapeutas. Depois estudei estas matérias me tornando terapeuta didata de grupo. Consegui me aproximar de pessoas mais saudáveis e estamos juntos há anos.

  1. Da Família:

Finalmente quero agradecer à minha família todo o apoio. Sem este apoio incondicional dela eu jamais alcançaria este lugar da confraternização de hoje. De minha família contei com a compreensão das muitas horas que roubei deles para avançar no conhecimento do ser humano. Cito aqui Ligia, minha querida esposa companheira e amiga há mais de 40 anos que juntos tivemos a felicidade de conceber 03 filhas maravilhosas: Flávia, Renata e Fernanda. A união delas com pessoas magníficas – Sergio Montenegro, Artur Menegale e André Semenza – ampliam o espectro de felicidade conjugal. Como conseqüência,  ganhamos Lara, a única e graciosa netinha. Ela complementa o prédio construído com muita luta e envolvido de extremado afeto o que tornou possível a sua transformação em um verdadeiro LAR.

 

Ter uma Família estruturada foi o meu grande sonho. Eu me orgulho dela. Ligia, companheira e amiga de longos anos que possui os dotes maternais indispensáveis para liderar uma prole. Com ela eu consegui a paz necessária para educar, trabalhar, estudar, exercendo minhas atividades com liberdade e segurança. As filhas desenvolveram tendo os pais como parâmetros e figuras de identificação. Colheram e plantaram o que elas elegeram e melhor destas figuras. Hoje, são elas mesmas. Nenhuma seguiu os passos do pai nem da mãe. Mas, tudo que fazem tem a ver com os exemplos. São dignas e éticas. Flávia a primeira tomou-se jornalista tendo vivido em Londres para aprender o suficiente para a vida profissional. Belo Horizonte ficou pequena para a sua formação e foi para a TV CULTURA, em São Paulo, onde há 15 (quinze) anos apresenta um programa que é a sua cara: Repórter/Eco. Ela é considerada uma das grandes autoridades brasileiras do tema ECOLOGIA. Escritora de sucesso está para lançar mais um livro, todos eles com objetivo construtivo, dentro do seu humanismo. Casou com Sergio Montenegro, filho de família Nordestina culta e trabalhadora. Seu pai, professor Universitário e a mãe funcionária pública graduada, deram a ele formação segura. Formado em ciências contábeis, exerceu essas atividades com sucesso. Agora cursa direito e diplomacia.  Tem dotes artísticos incontestáveis. Ele tem dado o suporte necessário para que Flávia esteja sempre alcançando pontos positivos em seus projetos. Constituem uma dupla harmoniosa e segura. Renata, a do meio, escolheu o direito para exercer suas atividades. Conceituada em seu trabalho na Arcelor Brasil, ocupa cargo importante no Departamento Jurídico, embora muito jovem. Casada com Arthur Menegale, Administrador, filho de família de excelentes educadores, constituem um casal feliz e cheio de planos. Eles conceberam um tesouro para os avós: Lara, que tendo chegado prematura e lutado bravamente nos CTIs da vida, está hoje absolutamente dentro dos padrões esperados para a sua idade. Sua beleza e inteligência a tomam graciosa e motivo de orgulho de toda a família. Finalmente, Fernanda a caçulinha, que foi buscar em Londres o Laban Ballet a Instituição mais importante no gênero da Europa. Lá ela fez o curso superior e concluindo os curso de ballet, coreografia e Teatro. Casada com André Semenza, filho de Giorgio Semenza, bioquímico de fama internacional, professor Emérito de Universidade Zurique, autor de inúmeros livros, André é cineasta Diretor com formação Londrina. Lá reside com Fernanda, mantendo residência, também, em Belo Horizonte. Dirigem com maestria duas Empresas Maverik Motion e Zikzira Dance Theatre, com prêmios acumulados por espetáculos realizados pelo mundo e vários filmes artísticos. Assim, a desidentificação das figuras modelo, permitiu que alcançassem o caminho próprio por méritos pessoais. Ter uma família assim é motivo de grande orgulho.

 

Para alcançarmos este nível de congraçamento tivemos a ajuda de Alderite que cuida de nossa casa há mais de 38 anos e de Nelci que neste mesmo tempo foi babá e hoje é babá-bisa de Lara.

Da minha família de origem permanecemos Aracy , e eu mesmo, sempre juntos e fraternais. Ela foi mais do que irmã na minha formação, e com ela abraço todos os meus queridos parentes sanguíneos aqui presentes. Envio o meu fraternal abraço, à toda família Ladeira, que me acolheu e me ajudou a crescer.

Assim, eu tive amplas possibilidades de criar, trabalhar e produzir, pois, estava amparado por um exército de mulheres competentes, supervisionadas sempre por Ligia Lippi, admirável artista plástica e administradora. Ela é responsável pela construção do nosso novo espaço, onde trabalhamos alegres e confiantes.

Por isso tudo, nunca me senti tão apto e preparado para atender ao sofrimento humano.

Á Ligia, que transformou a minha vida, deixo aqui o meu agradecimento especial, meu afeto, meu carinho e a minha amizade. Considero amizade, o que li no Diálogo Breur e Nietzche: [16]

Amizade é: “duas pessoas que se unem em busca de alguma verdade mais elevada” (yalom, 2002:328).

E mais ainda: “Contrato tácito entre duas pessoas sensíveis e virtuosas” (Voltaire, 2004:23).[17]

Sensíveis porque um monge, um solitário, pode não ser ruim e viver sem conhecer amizade. Virtuosas, porque os maus não adjungem mais que cúmplices. Os voluptuosos carreiam companheiros de vassidão. Os interesseiros reúnem sócios. Os políticos congregam partidários. O comum dos homens ociosos mantêm relações. Os príncipes têm cortesãos. Só os virtuosos possuem amigos. E eu acrescento: os ricos atraem os bajuladores.

“As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas… Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada” (Quintana, 2001:166).[18]

 

  1. Do Final

 

E, por encontrar tantas pessoas amigas aqui, encerro esta minha fala lendo o cartão que enviei para os Acadêmicos após minha eleição:

Belo Horizonte, 16/02/2007.

Prezado Confrade,

Aprendi com Cyra, minha modesta mãe, que o agradecimento é a gentileza maior que se pode prestar a quem lhe é solidário.  Desejo, portanto, agradecer não só a votação expressiva que permitiu minha eleição para membro titular da cadeira de nº. 86, mas, também, as inúmeras manifestações de apoio. Meu coração se encheu de alegria com tantas provas de afeto e consideração.  Por isto, enfatizo as palavras de (velho e Kuschinir:2001)[19]:

 

“Cada vez mais, na sociedade moderno-contemporânea,

a construção do indivíduo e de sua subjetividade

se dá através de pertencimento e participação

em múltiplos mundos sociais e níveis de realidade”.

Agradeço, uma vez mais, os votos da maioria que me permite fazer parte deste SILOGEU. Estou certo de alcançar, com os meus pares, o aprendizado e o crescimento almejados.

Estendo este agradecimento a todos os presentes, dizendo que Cyra , na sua simplicidade, foi um grande exemplo para mim. Envio a ela o meu afeto onde puder recebê-lo já que agora ela só existe na relatividade do tempo.

Assim, os sonhos de um candidato à Psiquiatria se tornaram realidade. E me lembro, novamente, de Baudelaire:

“Guarda teus sonhos: os sábios não os têm tão belos quanto os loucos”

(Baudelaire, 1985)[20]

 

O pai da Medicina e nosso Patrono maior Hipócrates escreveu há mais de 2000 anos:

 

“A vida é breve,       –     eu sei

a arte é longa,         –     todos sabemos

a oportunidade fugidia, – tentei não perdê-la

a experiência incerta, –  estou pagando para ver

o julgamento difícil.”

 

 

Espero que sejam generosos com este NOVO, “Velho” Acadêmico.

 

Tornar-se adulto é pisar em terra firme as nossas fantasias. A partir de hoje me sinto um pouco mais adulto.

 

Obrigado.

 

[1] GUIMARÃES ROSA, J. (1956). Grandes Sertões: Veredas.  Rio de Janeiro: Livraria José Olimpio.

[2] MELO NETO, J.C. (1969). Morte e vida Severina. Rio de Janeiro: Editora  Sabiá.

[3] LIPPI, J.R.S. Nascido em Juiz de Fora e registrado em Belo horizonte com quase nove anos de idade. Registro necessário para sua internação no SAM (FEBEM).

[4] SARAMAGO, J. (2000) A caverna. São Paulo: Companhia das Letras. 350p.

[5] QUINTANA, M. (1966). Antologia Poética. Rio de Janeiro: Editora do Autor.

[6] RAIMUNDO, A. M.;  PICCININI, W. DALGARRONDO, P(2005). Juliano Moreira (1873-1933): Founder of Scientific Psychiatry in Brazil. Am J Psychiatry  162-166.

[7] FONTES: ANDRADE, F. Relação; ARQ. GETÚLIO VARGAS; ASSEMB. LEGISL. MG. Dicionário bio­gráfico; Boletim Min. Trab. (5/36); CÂM. DEP. Deputados; CONSULTo MAGALHÃES, B.; Diário do Congresso Nacional;

Encic. Mirador; PEIXO­TO, A. Getúlio; Rev. Arq. públ. Mineiro (12/76); SILVA, H. 7933.

Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro, 2ª Edição Atualizada – Fundação Getúlio Vargas – R.J 2001 Vol.IV

[8] NERUDA, P. (1997). Confesso que Vivi. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 358pg.

[9] HUXLEY,A. (2001). As portas da percepção & o Céu e o Inferno. Rio de Janeiro: Ed. Globo.

[10] GENTIL FILHO, V. (2007). A Normalidade Existe. Páginas Amarelas. Revista Veja, Ed. Abril, Edição 2006 – 40 – nº 17 – 2 de maio.

[11] SVENDENSEN,L. (2006). Filosofia do tédio. Rio de Janeiro: Zahar Editores.

[12] LIPPI, F. (2007). Sem nome. São Paulo: Editora Matrix.

[13] ALCIDES, S. (2004). Uma capital ultra-romântica. In: Nossa História. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional. I: 3.

[14] WINNICOTT, D.  (1989). Holding and Interpretation: fragment of  analysis. London: The Institute of Psychoanalysis and Karnal Books.

[15] YALOM, I.D. (2006). Mentiras no Divã. Rio de Janeiro: Ediouro. 402p.

[16] YALOM, I.D. (2002). Quando Nietzche Chorou. São Paulo: Ediouro.407p

[17] VOLTAIRE (François Marie Arouet). (2004). Dicionário Filosófico. São Paulo: Ed. Martin Claret.502.

[18] QUINTANA, M. (1986). Caderno H.

[19] VELHO, G. e KUSCHINIR, K (2001). Mediação, Cultura e Política.    Rio de Janeiro. Ed. Aeroplano.

[20] BAUDELAIRE, C (1985). As Flores do Mal. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira.

 

Discurso do Acadêmico Jorge Paprocki, cadeira 99 para a posse de José Raimundo da Silva Lippi cadeira 86 na Academia Mineira de Medicina em 18/03/2007

 

Saudação

 

Muito  ilustre  Presidente da Academia Mineira de Medicina,  excelentíssimas  autoridades,  eminentes  e  estimados colegas acadêmicos;  prezadas  senhoras   e   prezados   senhores.   Este  é  um   momento  muito solene. Estamos  aqui  para  empossar,  escutar,  e  aplaudir  um  novo  membro  da   Academia  Mineira  de Medicina. Trata-se do especialista   em psiquiatria da infância e adolecência: Professor, Doutor, José Raimundo da Silva Lippi.

 

A  Solenidade  desse  Momento

 

A solenidade desse momento decorre do fato de que ele representa o coroamento de um processo em que, um grupo de eminentes e consagrados doutores, que constitue a elite médica de nosso estado, reconhece, no postulante, os méritos necessários e suficientes para  vir a pertencer a essa mesma elite.  Acreditamos que, em qualquer atividade, a maior glória consiste em ter os seus méritos reconhecidos por seus pares.

 

O  Papel  do  Paraninfo

 

O Regimento Interno da Academia determina que, na solenidade da sua posse, o novo acadêmico seja saudado por um paraninfo de sua escolha e aprovado pelo presidente. Este é o meu papel nesta noite: paraninfar o ingresso de um novo membro titular na Academia Mineira de Medicina. Trata-se de uma incumbência muito honrosa, que nos dá o direito de ocupar esta tribuna e de expressar os nossos pensamentos e sentimentos para uma platéia seleta e sofisticada, o que é sempre um grande privilégio.

 

A  Academia  e  os  Acadêmicos

 

Em sua fala introdutória  o presidente Evaldo Alves D’Assumpção  fez um esboço resumido de como funciona a Academia e de como é feita a admissão dos candidatos.  Em minha fala vou me permitir acrescentar algumas palavras acerca dos  membros  da Academia. As  finalidades principais desse trecho de meu discurso são as seguintes: homenagear meus colegas acadêmicos,  enaltecer a Academia e destacar a sua importância. Acredito que essa prática deve ser exercida em todas oportunidades possíveis, em relação a todas instituições médicas: Academias, Associações, Conselhos, Sindicatos. Precisamos, cada vez mais, de instituições fortes e com representatividade, que sejam ouvidas e que possam ajudar à por um fim à: proliferação desordenada de escolinhas de medicina do tipo “pagou / passou”; indústrias farmacêuticas de fundo de quintal; um CONEP que inibe a realização de pesquisas; assistência médica pública “de faz de conta”; órgãos públicos estruturados por governantes ingênuos, dentro do espírito de uma frase de Roberto Campos: instituições brasileiras com aspirações suecas,  recursos moçambicanos planejamento lusitano. Dito isso, vamos destacar: todos os  membros da Academia, ao longo de suas vidas, realizaram alguns feitos que foram considerados muito relevantes em algum plano de atividade médica: no exercício de clínica, na prática de ensino e de pesquisa, em funções administrativas e de assistência pública e em cargos de direção de associações de classe. Muitos deles conseguiram realizar feitos notáveis em vários planos de atividade. Como o seu valor já foi sobejamente demonstrado, antes de seu ingresso na academia, o resultado é um ambiente e um comportamento de civilizada cordialidade e urbanidade, muito salutar e bastante raro em comunidades médicas mais jovens, onde todos, durante todo o tempo, tem necessidade de provar que são bons e, principalmente, que são melhores que os outros. Aqui tudo isso já foi comprovado! Esta é a minha maneira de ver a Academia e os acadêmicos: somos um grupo de médicos não muito jovens, maduros e experientes, plenamente conscientes de nosso valor, com necessidades de afirmação bastante reduzidas e índices bastante moderados e aceitáveis de competitividade e de agressividade.  Não estou afirmando que se trata de um ambiente sublime, casto, puro e angelical ou celestial. Ainda que raramente, cometemos alguns deslizes. Afinal de contas, apesar de imortais, somos humanos!

 

O  Novo  Acadêmico

 

Posto isso, como é de praxe, devo falar agora acerca do novo acadêmico:  Professor Doutor José Raimundo da Silva Lippi.  Para seu ingresso na academia o candidato apresentou um memorial muito impressionante, com vários e espessos volumes que ilustram muito bem  como foi perseverante e obstinada a sua caminhada. Dentro das limitações de tempo, pretendo destacar, de maneira sucinta e resumida, seus dados pessoais e titulação, as suas principais atividades docentes, algumas atividades administrativas e associativas e as suas publicações mais relevantes.

 

Os  seus dados  pessoais são os seguintes:

 

Nasceu em Belo Horizonte em 1935.  Filho de Cyra Maria da Silva e Humberto Emmanuel Lippi.  É casado com Ligia Ladeira Lippi  Tem três filhas: Flávia, Renata e Fernanda e uma neta, Lara.  Estudou no grupo escolar Dom Pedro II e no colégio Marconi. Cursou a Faculdade de Medicina da UFMG, concluída em 1965.

 

Seus títulos mais importantes são:

 

É especialista em psiquiatria a partir de 1970 pela Associação Brasileira de Psiquiatria e pela Associação Médica Brasileira. É especialista em  Psiquiatria  da Infância Adolescência desde 1979, pelo Departamento  de  Psiquiatria e Neurologia da Faculdade de Medicina da UFMG em convênio com a Associação  Brasileira de Psiquiatria Infantil. Possui a Ordem    do      Mérito      Educacional no grau de Grande Medalha, outorgada em 2001,  pelo governo do Estado de Minas Gerais. É Doutor   em   Medicina pela  FIOCRUZ a partir de 2003, com  a tese  “Tentativa de suicídio associada a violência física, psicológica e sexual  contra a  criança   e o adolescente”. A partir de 2007 é Membro Titular da Academia Mineira de Medicina.

 

Suas principais atividades docentes:

 

Professor  Adjunto (aposentado) do Departamento de Psiquiatria  e Neurologia da  Faculdade de Medicina da UFMG.  Coordenador da Residência em Psiquiatria Infantil do   Departamento de Psiquiatria  da Faculdade de Medicina da UFMG;  coordenador geral do Curso de Especialização em Psiquiatria e Psicologia da Infância e Adolescência do Departamento de Psiquiatria e Neurologia da Faculdade de Medicina da UFMG. Professor colaborador do Departamento de Psiquiatria,  Medicina Legal, Ética Médica, Medicina Social e do Trabalho da Faculdade  de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

 

Suas principais atividades administrativas e associativas

 

  1. Foi Diretor Clínico do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil,  da Fundação      Estadual de Assistência Psiquiátrica (FEAP) mais tarde, Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG),  no período de 1969 a 1972;
  2. Foi Presidente da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil

em 2 (duas) gestões: de 1975 a  1977 e de 1985 a 1987;

 

  1. Fundador e primeiro presidente da Associação Ibero-Americana de

Prevenção do Maltrato   Infantil (1982 à 1988).

 

Publicações:

 

É autor de um grande número de capítulos, em livros e de artigos em revistas, nacionais e estrangeiras. Aqui destacamos alguns de seus livros mais importantes: Depressão na Infância, publicado em 1986. Psiquiatria Infantil: Estudo Multidisciplinar, publicado em 1987. Abuso e Negligência na Infância: Prevenção e  Direitos publicado em 1990. Ofensas Sexuais – Estudo Multidisciplinar publicado em 2005.

 

O meu  afilhado: José Raimundo

 

Esta enumeração de dados, protocolar,  não traduz o que eu penso e sinto em relação ao meu ex-estagiário.  Vou tentar exprimir esses sentimentos a seguir: eu conheço o José Raimundo (sem professor doutor) há 43 anos, a partir de quando ele foi estagiário voluntário do Hospital Galba Veloso, que eu dirigia, na época. Ele fez parte da primeira geração de psiquiatras mineiros formados nesse hospital e participou, ativamente, da revolução que aí ocorreu no período de 1964 à 1969:  na área de assistência psiquiátrica pública,  com a abolição total de meios de contensão mecânica; no ensino formal de psiquiatria,  com a instalação da primeira residência da especialidade em Minas Gerais: na implantação de um pólo de pesquisas com psicofármacos;  na realização dos primeiros congressos de psiquiatria em Minas Gerais. Essa revolução produziu poucos resultados à longo prazo. A psiquiatria mineira tem pouca coisa, de que se orgulhar no presente. Mas foi muito boa e bonita enquanto durou. Nesse período ele deu início à  implantação de um tratamento racional e humano em uma enfermaria de crianças e adolescentes do Hospital Galba Veloso. Pouco mais tarde, ampliou as estratégias testadas nessa enfermaria, na direção do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil da (FEAP). Desse período ficou a lembrança de um homem disciplinado, com um desempenho eficiente, responsável e correto.

A partir de 1970 acompanhei a trajetória do Dr. José Raimundo da Silva Lippi de longe e com admiração, por sua obstinação  no esforço para o aprimoramento da nascente psiquiatria infantil, no Brasil e na implantação da psiquiatria infantil em Minas Gerais. No estabelecimento de um intercâmbio com figuras de muito relevo; na organização de muitos congressos de psiquiatria infantil, locais, estaduais, nacionais e internacionais;  na estruturação de um grande número de cursos de psiquiatria infantil e conseqüente formação de profissionais; na fundação de sociedades importantes, ligados a essa área.

Também acompanhei, de longe, a sua carreira acadêmica,  como professor da Faculdade de Medicina da UFMG  e agora, já com o recente título de PHD, como professor colaborador do Departamento de Psiquiatria Medicina Legal e Ética Médica, na Faculdade de Medicina da grande Universidade de São Paulo,  referência do  ensino, de pesquisa e de assistência psiquiátrica, centro de excelência da psiquiatria brasileira, com grande prestígio nacional e internacional. Em resumo: vemos no acadêmico José Raimundo da silva Lippi: um profissional dedicado e competente, com papel muito destacado na implantação da psiquiatria infantil no Brasil e em Minas Gerais, com características pessoais de empreendedor obstinado,  um realizador, um fazedor de coisas.

 

Encerramento

 

No meu discurso de posse, nesta Academia eu lembrei aquele dito, muito conhecido, de que metade dos médicos julgam que são deuses e a outra metade, tem certeza disso.  Na ocasião procurei prestar uma homenagem às esposas dos médicos presentes, na certeza de que a convivência com deuses, a longo prazo, deve ser muito onerosa. Aqui na Academia Mineira de Medicina, a medida que amadurecemos e nos tornamos menos jovens, a aspiração à divindade passa a ser um pouco mais modesta: já começa a existir um consenso de que, todo o acadêmico, deve contentar-se com a condição de semi-deus. Parece que na próxima reforma dos estatutos e do regimento interno existirá um artigo decretando o seguinte: fica terminantemente proibido, ao acadêmico titular, aspirar a condição divina. Todos devem contentar-se com a condição de semi-deuses. Parágrafo único: Essa determinação não se aplica aos Acadêmicos Eméritos, Honorários e aos Presidentes da Academia e do Conselho Superior. Diante disso, estou enviando para a Lígia, esposa do José Raimundo, um recado e um conselho de amigo: prepare-se para conviver, de hoje em diante, com um semi-deus. Muito sucesso.

 

Palavras  finais

 

As minhas palavras finais serão de agradecimento:

  1. Pela oportunidade de ocupar essa tribuna
  2. Pela honrosa incumbência de paraninfo
  3. Pela emoção de receber um novo acadêmico na pessoa de um ex-estagiário.
  4. Pela atenção e paciência com que vocês me escutaram.
  5. Para concluir vou usar uma expressão informal e sucinta que está na moda entre os jovens: valeu!